O mercado brasileiro de snacks é dominado por multinacionais, com marcas globais e fortes investimentos em marketing. Mas uma empresa goiana vem desafiando esse poder e comendo parte desse segmento pelas beiradas, morando, agora, a disputa por espaço nas gôndolas do Sudeste.

Com essa estratégia, a Cicopal já é uma das quatro maiores empresas do Brasil no segmento de salgadinhos e batata palha. Agora, investiu mais de R$ 180 milhões na construção de uma nova unidade em Patrocínio (MG), inaugurada na manhã desta quinta-feira, 26 de fevereiro, de olho na expansão territorial e no aumento de participação no principal mercado consumidor do País.

Em entrevista ao AgFeed, o CEO da empresa, Victor Cardoso, disse que esta será a quarta unidade fabril da empresa, que já opera em Goiás, Pará e Bahia. A nova planta terá capacidade anual próxima de 27 mil toneladas e fabricará batatas chips e palha, salgadinhos de milho e uma nova linha de tortilhas.

O movimento é só mais um capítulo de uma trajetória de expansão iniciada há alguns anos e que deve perdurar até 2030. "Estamos presentes hoje em 15 estados e, desses todos, sete foram abertos no ano passado, principalmente no Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Agora, começamos na região Sudeste", disse.

O investimento na fábrica mineira é apenas a primeira etapa de um plano que pode chegar até R$ 250 milhões com a fábrica em pleno funcionamento, com todas as três linhas previstas operando. Segundo Cardoso, todos os recurso para colocar a fábrica de pé - maquinário, pessoal, estrutura física - v}em do próprio caixa da companhia.

Fundada em 1993, a empresa completa 33 anos em 2026 e mantém perfil familiar. O presidente fundador é Vanderlan Cardoso, que hoje é senador por Goiás, e a gestão executiva está hoje com a segunda geração: seu filho, Victor.

O desembarque no Sudeste ocorre agora com Minas Gerais, mas até o final do ano, a empresa deve estar comercialmente no Rio de Janeiro e Espírito Santo.

“Sudeste e Sul são as regiões onde temos maior consumo per capita. O produto precisa estar próximo do consumidor”, afirmou Cardoso.

Para chegar ao consumidor final, a estratégia engloba um produto com preço menor que o das líderes multinacionais - PepsiCo (dona da Ruffles e Lay's) e Kellog's (dona da Pringles) - e vendas multicanal, tanto via supermercados, mercearias quanto em cantinas e máquinas automáticas. Os produtos da empresa levam as marcas Micos, Crony, Refinata, Slight e Peticitos.

Dentro do planejamento estratégico, a entrada em São Paulo está prevista para 2028, quando a empresa pretende iniciar a construção de uma nova fábrica no estado.

A escolha de Patrocínio não se deu apenas pelo mercado consumidor. A região do Alto Paranaíba é um importante polo produtor de batatas, principal insumo da companhia. Segundo o CEO, a proximidade com fornecedores é determinante para a eficiência da operação.

Há pouco mais de 60 quilômetros dali está a maior produtora de batatas do País, a cidade de Perdizes (MG), que segundo dados da Associação Brasileira de Batata In Natura (ABBIN), é responsável por 34,3% de toda a produção do tubérculo no Brasil. Ainda próxima, a região do Triângulo Mineiro ajuda na parte de grãos como o milho, também usado como insumo na produção.

Cardoso não sabe precisar o quanto compra de batatas num ano, mas estima que para produzir uma carreta de batatas chips, a empresa precisa de aproximadamente quatro carretas de batata in natura. Hoje, as fábricas da Cicopal produzem 6 mil toneladas por mês entre snacks e batata palha, cerca de 72 mil toneladas no ano.

Considerando a proporção, a compra de batatas pode chegar a quase 300 mil toneladas de batata em doze meses.

“A batata é praticamente água. Quando você compra batata, apenas 20% são sólidos”, explicou. Por isso, reduzir distância entre campo e indústria impacta diretamente custo e eficiência.

A Cicopal mantém contratos anuais com fornecedores de batata, milho e trigo e conta com uma área interna dedicada ao acompanhamento do campo. “Temos um gerente de agro que visita o campo, acompanhamos produtividade e qualidade para prever algum tipo de falha no fornecimento”, disse Cardoso, citando riscos climáticos como excesso de chuva, sol ou frio.

A nova operação deve contribuir de forma relevante para o resultado financeiro já em 2026. “Projetamos que a nova operação de Minas Gerais contribua com um acréscimo de 10 pontos percentuais em nosso orçamento de receita anual”, afirmou o CEO, que não detalha os números.

O mercado brasileiro de snacks salgados tem registrado crescimento médio de cerca de 7% ao ano na categoria de snacks salgados, segundo dados citados pelo executivo. Apesar disso, Cardoso afirma que a empresa tem crescido acima da média do setor nos últimos anos.

"Existe um crescimento orgânico nas operações, mas quando olhamos a expansão, novos mercados, é natural que cresçamos ainda mais. A categoria é bem aquecida e está num bom momento apesar de alguns desafios do mercado, como as mudanças de consumo com canetas emagrecedoras e a tendência de proteínas”, disse o CEO da Cicopal.

Resumo

  • A Cicopal investiu mais de R$ 180 milhões em sua quarta fábrica, mirando expansão no Sudeste e aumento de participação em uma região de maior consumo per capita
  • A unidade mineira reforça a estratégia de crescimento territorial da companhia, que já atua em 15 estados e projeta entrada em RJ e ES ainda este ano, com São Paulo no radar para 2028
  • A escolha de Minas também é estratégica pela proximidade com polos produtores de batata e milho, reduzindo custos logísticos em uma operação que pode consumir até 300 mil toneladas de batata por ano