Há cerca de cinco meses, o engenheiro agrônomo Ithamar Prada deu o passo mais ousado de sua vida. Executivo com carreira sólida nas indústrias de fertilizantes e nutrição de plantas, em que chegou à posição de vice-presidente de Marketing e Inovação da filial brasileira da israelense ICL, e uma passagem rápida como CEO da fabricante de biológicos BioWorld, ele resolveu que era hora de mudar.
Desde então, vem trabalhando, quase em silêncio, em um projeto que só deve sair do papel, se tudo correr como planejado, no início do próximo trimestre.
Quando abril chegar, o executivo – que agora assina como CEO, mas sobretudo como empreendedor – espera lançar os primeiros produtos da Synkka, fabricante de insumos agrícolas que ele fundou ao lado dos empresários Daniel Queiroz Brunetto e Leandro Vilhena, donos da Dikka, uma empresa química especializada em tecnologias para tintas e dispersão de pigmentos.
Os três sócios reservaram, do próprio bolso, um total de R$ 25 milhões para sair do zero e colocar a Synkka em campo. Os recursos estão sendo investidos em pesquisa e desenvolvimento, na construção de uma fábrica e no capital necessário para rodar o início de operação na fase pre-comercial.
Eles correm contra o tempo. Já estão adiantados na construção de uma fábrica na cidade de Franca, no Interior de São Paulo. E também em 46 experimentos nos estados de Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo.
“Estamos naquela fase supergostosa de ir realmente para o campo, olhar para os experimentos, ver o que eles estão nos mostrando”, diz Prada, instalado no novíssimo escritório na sede da empresa.
O foco da Sinkka estará em produtos para nutrição de plantas, com aplicação foliar. Segundo Prada, a ideia é atender o que ele chama de “nova dinâmica do agro”, surgida a partir da maior adoção de bioinsumos nas lavouras.
“Estamos desenvolvendo uma linha é compatível e sinérgica com bioinsumos”, explica. “Quando o produtor faz a aplicação dentro do mesmo tanque da nossa linha de insumos, esses produtos não impactam negativamente. Alguns deles até potencializam o uso do insumo”.
Segundo Prada, todos os produtos da empresa serão líquidos, já otimizados para a operação no campo de um produtor que está usando drone para aplicações mais localizadas, por exemplo, prática que também faz parte da “nova dinâmica”.
“São produtos com uma concentração de nutrientes mais elevadas do que um líquido convencional, porque trabalhamos também com uma fração desses nutrientes aplicados à escala nanométrica, usando o know-how, a tecnologia, o conhecimento dos meus sócios na indústria química, já com nanodispersão há mais de 10 anos”, complementa.
Os sócios se completam
Vilhena e Brunetto já vinham, há algum tempo, discutindo oportunidades ligadas ao agro, conta Prada. “Mas tinham interesse de começar um negócio voltado a tecnologias para o agronegócio, porque o Vilhena também é cafeicultor há mais de 30 anos, e conhecia ali as dores do mercado e o que o produtor passa no dia a dia dentro da fazenda”.
O produtor rural Vilhena é cliente da BioWorld e, como tal, conheceu o então CEO da empresa, que pouco tempo depois se tornaria seu sócio. As visões de ambos convergiram e decidiram caminhar juntos, com Brunetto no time.
Há cerca de um ano, o trio sentou-se diante de “uma prancheta em branco para desenhar aquilo que a gente iria fazer”.
Eles concordavam de que o novo negócio devia trazer ideias originais, mesmo que demandasse mais tempo para implementar do que trabalhar com tecnologias que o mercado já oferece.
Durante vários meses, Prada dividiu-se entre o novo projeto e a BioWorld, mas na metade do ano passado percebeu que precisaria se dedicar integralmente em levantar a Synkka. “Era preciso colocar energia e tração para desenvolver todos os conceitos, o portfólio, a visão da empresa, montar a equipe”, diz.
O primeiro time escalado foi o de desenvolvimento, capitaneado pelo sócio Daniel Brunetto. “Químico por excelência”, segundo Prada, ele passou a testar uma série de formulações para atender aos alvos que almejados como portfólio.
“Tudo baseado numa dor que o Leandro, como produtor, sentia”, diz Prada. “O Leandro é um produtor rural que intensificou muito o uso de bioinsumos, mas ele tinha uma insegurança muito grande ao misturar os bioinsumos com os nutrientes dentro de uma mesma calda”.
A questão do cafeicultor Vilhena era o efeito de mortalidade dos organismos vivos dos bioinsumos quando colocados em um mesmo ambiente com insumos químicos. E o impacto que isso teria no desempenho dos biológicos.
Foi a partir dessa indagação que os três sócios iniciaram sua empreitada, primeiro com o desenvolvimento de formulações e, a seguir, com testes de compatibilidade, sinergia com bioinsumos e avaliações de estabilidade.
No segundo semestre de 2025, uma nova fase foi iniciada, com as bateria de estudos biológicos e agronômicos. “São tecnologias proprietárias, algo que é diferente do que o mercado está acostumado a trabalhar”, afirma Prada.
“Estamos na fase agora de realmente entender o que as plantas acham daquilo que a gente desenvolveu. Ainda é muito para ser colhido, para ser avaliado, mas aquilo que a gente está vendo no campo nos deixa bastante entusiasmados”.
Os testes envolvem, de acordo com ele, produtos para nutrição foliar, tratamento de sementes, adjuvantes, produtos para aliviação de estresse, sobretudo térmico, e insumos que agem na melhoria das condições do ambiente de solo para os microorganismos.
Os experimentos não são feitos a nível de produtor rural, mas junto a estações de pesquisa de universidades, instituições e consultorias. Na lista de parceiros estão, por exemplo, Unesp e Centro de Energia Nuclear na Agricultura.
“Todos esses experimentos são feitos com alinhamento estatístico para que, em conjunto, a gente realmente use do conhecimento também desses acadêmicos e consultores, alguns mais voltados na geração de conhecimento e outros que estão vivendo o dia a dia da fazenda”, afirma.
Cronograma apertado
Os agricultores só conhecerão os produtos da Synkka efetivamente na fase comercial. “A gente já vai levar um portfólio que está validado, que a gente realmente conheça o posicionamento, as misturas que o produtor possa fazer dentro de um tanque de pulverização, um produto que já está com maturidade técnica maior para o produtor”, explica.
À medida em que o cronograma aperta, as tarefas de Prada e seu time se avolumam. A previsão de lançamento dos primeiros produtos da empresa é para abril, mas ainda é preciso avançar com a conclusão e testes operacionais da fábrica, analisar os testes para decidir quais serão os produtos eleitos e seguir com registros.
A ideia é chegar ao mercado já com 11 produtos e são produtos na prateleira, todos eles multiculturas, mas que inicialmente serão focados nos mercados de soja, milho, cana-de-açúcar e café.
A priorização das grandes culturas foi, além de mirar os maiores mercados, uma forma de ampliar o nível de resposta para as tecnologias da Synkka.
No caso do café pesou também a questão geográfica – a sede da empresa está no coração de uma região produtora – e o fato de um dos sócios, Vilhena, ser produtor. “Ele é um cafeicultor importante e a gente pode toda a experiência dele a favor do desenvolvimento da linha”, diz Prada.
Segundo Ithamar Prada, o registro é relativamente simples para a categoria de produtos nutricionais. Em alguns itens do portfólio, como os insumos para tratamento de sementes, que têm uma exigência técnica um pouco maior, o prazo pode ser um pouco mais longo.
O desafio comercial
A pressão aumenta, porque chegar ao mercado no início do segundo trimestre é fundamental para ainda garantir as primeiras vendas antes do início da safra 2026/2027.
E também nesse sentido, é preciso acelerar com a preparação de uma equipe capaz de fazer essas vendas. “Hoje a empresa tem zero de time comercial”, admite Prada.
“Vai ser uma corrida. Estamos conversando com os primeiros possíveis parceiros de negócios e começando a fazer uma prospecção dos colaboradores, de profissionais vir a somar o nosso time”.
A estratégia de deixar essa fase para o final foi, segundo ele, intencional e visava só buscar profissionais de vendas a partir do momento em que estivesse claro que tipo de produtos eles teriam para comercializar.
Hoje, Prada acredita já ter o nível necessário de confiança para dar esse passo. “Nós estamos investindo todo o nosso recurso, nosso tempo, nossa energia, na parte de inovação, desenvolvimento de tecnologia e a parte de engenharia”.
A construção da indústria, por exemplo, segue dentro dos prazos, com previsão de começar a operar também no início de abril. A capacidade instalada – 4 milhões de litros por ano, trabalhando um turno comercial – garantiria, segundo Prada, a produção estimada até 2029.
“A gente já tem uma visão de que nós vamos precisar expandir depois essa unidade, mas a gente acredita que essa nos leve, de acordo com o nosso plano de negócios, para os três primeiros anos”, avalia.
A confiança do empreendedor contrasta com o momento do setor que ele e os sócios decidiram desbravar. O mercado de insumos atravessa um cenário de margens apertadas e de empresas em dificuldades financeiras na indústria e no varejo. Os clientes finais dessa cadeia, os produtores rurais, vivem desafio semelhante.
Prada acredita, entretanto, que há sinais de melhoria à frente e quer estar com os motores ligados quando a avenida do crescimento for novamente aberta.
“Somos uma empresa de P&D, nosso foco realmente é no desenvolvimento de tecnologia e a gente entende que esse setor de nutrição foliar de plantas ainda tem uma avenida muito grande para avançar do ponto de vista tecnológico”, analisa.
“Quando a gente tira o olhar só da fotografia e olha para o agro como um todo, vê que vai crescer cada vez com uma agenda que permite realmente a maior geração de valor. Vai continuar existindo realmente uma grande oportunidade para avançar em tecnologia. É isso que nos dá confiança e a gente entende que nós estamos no lugar certo e no momento certo para fazer esse movimento que fizemos”.
Resumo
- Ithamar Prada deixa cargos executivos e, ao lado de Daniel Queiroz Brunetto e Leandro Vilhena, funda a Synkka para competir no mercado de insumos agrícolas
- Empreendedores investem R$ 25 milhões em P&D, fábrica própria e tecnologias compatíveis com bioinsumos
- Lançamento comercial está previsto para abril e prevê 11 produtos multiculturas, com foco em soja, milho, cana e café