A bicicleta do crédito precisa continuar girando. Em um cenário marcado por dificuldades financeiras dos produtores rurais e por juros ainda elevados, novas alternativas de financiamento ganham espaço no agronegócio, impulsionadas pela necessidade de manter o fluxo de investimentos e a oferta de insumos no campo.

É nesse contexto que o banco Rabobank e a multinacional de defensivos agrícolas Bayer anunciaram nesta terça-feira, dia 27 de janeiro, o fechamento de uma captação bilionária para continuar financiando sua cadeia de distribuidores, cooperativas e produtores rurais.

A operação, que envolveu a captação de cerca de R$ 1 bilhão, foi estruturada pelo Rabobank com a aquisição de cotas de dois Fiagros-FIDC – Bayer CropCredit I e Bayer CropCredit II – que adquirem direitos creditórios vinculados à compra de produtos da Bayer. Os veículos são geridos pela Farmtech.

A maior parte dos recursos da captação, segundo Mario Ferreira, head de wholesale do Rabobank Brasil, veio da própria tesouraria do banco, que atua como único investidor das cotas sênior. A Bayer, por sua vez, entrou como investidora das cotas mezanino e a gestora Farmtech ficou com as subordinadas.

"Esse desenho traz segurança para todas as partes, já que contamos com um profundo conhecimento do setor, o que permite maior flexibilidade ao longo da vida da operação e maior solidez em momentos de volatilidade ou crise setorial", diz Ferreira ao AgFeed.

A captação envolve duas linhas de financiamento, uma de R$ 700 milhões e outra de US$ 50 milhões (cerca de R$ 261,4 milhões, no câmbio do dia).

A linha em real é voltada a todos os tipos de cliente, segundo a Bayer. Já a linha em dólar está sendo destinada para produtores de soja e algodão de Mato Grosso e Cerrado e funciona por meio da emissão de uma CPR-F (CPR financeira) indexada à variação cambial.

“Dessa forma, o financiamento acompanha a dinâmica do dólar, trazendo mais aderência ao fluxo de receitas desses clientes e maior eficiência na gestão financeira da operação”, avalia Mario Ferreira, do Rabobank.

“Trabalhamos para possibilitar o aumento do poder de compra de clientes e parceiros e oferecer mais uma opção de financiamento em um ano de crédito escasso e desafiador ao agronegócio”, complementa Marcos Arruda, CFO da divisão agrícola da Bayer no Brasil, em nota. “Ter acesso às ferramentas inovadoras será um importante diferencial competitivo.”

As linhas de financiamento fazem parte do programa CropCredit, lançado pela Bayer e pela Farmtech em agosto de 2024, e que funciona de forma integrada entre indústria, distribuidores e plataforma financeira, com limites de crédito pré-aprovados sem a necessidade de apresentação de garantias reais por parte dos produtores.

A Bayer não divulgou condições ou taxas específicas de financiamento, mas informou que, "de forma geral os custos são competitivos e estão em linha com as soluções financeiras que a Bayer já oferece atualmente ao mercado."

O movimento da companhia alemã segue uma tendência cada vez mais clara no mercado de capitais ligado ao agro.

No início do mês, a Basf, outra multinacional de defensivos com sede na Alemanha e concorrente da Bayer, anunciou uma operação semelhante ao concluir a captação de R$ 1,4 bilhão na quarta emissão de cotas de um Fiagro-FIDC. Os recursos serão destinados ao financiamento da venda de insumos para a cadeia de distribuição, cooperativas e produtores rurais.

Para Renato Barros Frascino, head de agronegócio da Opea, esse tipo de estrutura tem ganhado tração no setor. Em entrevista recente ao AgFeed, Frascino afirmou que as operações com Fiagro-FIDC vêm se multiplicando.

"A gente tem visto um crescimento de várias indústrias, de insumos, revendas, cooperativas, acessando o mercado de capitais através das estruturas de operações pulverizadas”, disse.

Na avaliação de Frascino, a tendência deve se intensificar ao longo deste ano, com potencial para atrair um número ainda maior de empresas dos segmentos de fertilizantes, sementes, máquinas agrícolas e outros insumos.

Resumo

  • Com produtores pressionados financeiramente e juros ainda elevados, novas estruturas de crédito ganham espaço para manter o fluxo de investimentos e a oferta de insumos no agronegócio
  • Nesse contexto, Rabobank e Bayer fecharam uma captação de cerca de R$ 1 bilhão via dois Fiagros-FIDC do programa CropCredit, com recursos em real e em dólar para financiar distribuidores, cooperativas e produtores
  • O movimento reflete uma tendência mais ampla no mercado, com operações semelhantes e expectativa de que mais empresas de fertilizantes, sementes, máquinas e insumos recorram à securitização para acessar o mercado de capitais