Enquanto os líderes globais se reúnem nos Alpes suíços para o Fórum Econômico Mundial, em Davos, e o mundo ainda processa os desdobramentos da COP30 realizada no Brasil, uma pergunta silenciosa atravessa governos, empresas e pessoas comuns: Estamos caminhando para mais cooperação ou para mais fragmentação?
À primeira vista, esses dois eventos parecem tratar de coisas diferentes.
A COP fala de clima, florestas, água, biodiversidade e limites planetários. Davos fala de economia, investimentos, tecnologia, cadeias globais e poder.
Mas, no fundo, ambos tratam da mesma coisa: como sobreviver e prosperar em um planeta que entrou em crise ambiental, social e geopolítica ao mesmo tempo.
A COP nos lembra algo essencial: o planeta impõe limites.
Davos revela algo igualmente importante: o sistema econômico também está no limite.
Estamos vivendo um momento histórico em que esses dois sistemas o físico e o econômico — entraram em tensão. E quando isso acontece, os riscos deixam de ser abstratos.
Eles aparecem no preço da comida, na instabilidade dos empregos, na escassez de água, nos conflitos humanos, na ansiedade coletiva, na fragilidade da saúde mental.
Davos 2026 acontece exatamente nesse ponto de inflexão. Os cinco grandes temas do encontro deixam isso claro:
• cooperação em um mundo contestado;
• novas fontes de crescimento;
• investimento nas pessoas;
• inovação responsável;
• prosperidade dentro dos limites do planeta.
Nada disso é coincidência. Esses temas refletem um mundo em que as alianças globais estão frágeis, as cadeias produtivas estão sendo redesenhadas, a tecnologia concentra poder, o trabalho está mudando e o clima já afeta a economia real.
Em outras palavras: o risco deixou de ser algo do futuro, ele já está no presente.
É aqui que a comparação com a COP 30 se torna poderosa.
A COP fala do planeta que não negocia.
Davos fala dos sistemas humanos que tentam negociar com a realidade.
Quando a ciência diz que ultrapassamos limites ambientais e a economia continua baseada em crescimento infinito,
a tensão é inevitável.
E quando, ao mesmo tempo, a geopolítica se torna mais competitiva e menos cooperativa, essa tensão se transforma em risco sistêmico.
Mas há algo ainda mais importante que precisa ser dito: o mundo que emerge de Davos e o mundo que emerge da COP não são criados apenas por governos e CEOs.
Eles são criados por milhões de escolhas individuais. O que consumimos. De quem compramos. Que empresas financiamos. Que narrativas aceitamos. Que tipo de liderança admiramos.
Sistemas globais são a soma de comportamentos cotidianos.
Por isso, a ideia de que “nada do que eu faço importa” é talvez a maior armadilha do nosso tempo.
Em um mundo hiper conectado, toda escolha é um pequeno voto sobre o futuro. E isso nos leva à pergunta mais incômoda que Davos e a COP colocam, mesmo quando não dizem em voz alta: vamos organizar o mundo em torno do medo, da competição e do curto prazo ou em torno da cooperação, da ética e do futuro comum?
O planeta não negocia. Mas os sistemas humanos sim.
E eles só mudam quando uma massa crítica de pessoas muda o que considera aceitável.
O futuro não será decidido apenas nos Alpes suíços ou nas florestas amazônicas. Ele será decidido todos os dias, nas escolhas silenciosas de bilhões de pessoas.
E isso inclui você. Vamos ser passageiros ou condutores do nosso próprio destino?
Leonardo Lima é socio da Dreams & Purpose Consulting