Garantir o pão nosso de cada dia está cada vez mais difícil para a indústria nacional, que ficou ainda mais dependente do trigo importado.
Os desafios do segmento estão sendo discutidos por centenas de representantes dos moinhos brasileiros e de outras empresas envolvidas na cadeia de farinhas, massas e biscoitos, reunidos esta semana no Rio de Janeiro (RJ), no Congresso Internacional da Abitrigo, entidade que representa o setor.
No painel de abertura, na manhã desta quinta-feira, 22 de outubro, o presidente da Abitrigo, embaixador Rubens Barbosa, sinalizou que a entidade prepara um documento que será entregue ao candidato que vencer a eleição presidencial do próximo domingo.
Um dos problemas que enfrenta o setor é a queda na produção brasileira de trigo. Com problemas climáticos na região Sul, onde está concentrada a maior parte das lavouras. O País deve colher 5,7 milhões de toneladas, o que representa uma queda de mais de 27% em relação ao ano passado.
“Para garantir o suprimento regular dos moinhos e o pleno abastecimento da indústria alimentícia e da população, os moinhos recorrerão de forma mais intensiva às importações, que pode chegar ou ultrapassar 9 milhões de toneladas”, afirmou Barbosa.
O volume de 9 milhões de toneladas representa a maior importação de trigo dos últimos 30 anos, segundo a Abitrigo. Historicamente, o setor vinha importando 6 milhões de toneladas. Além da menor oferta brasileira, os moinhos enfrentam também uma safra com baixa qualidade do trigo argentino.
Em entrevista ao AgFeed, após o primeiro painel, o embaixador Rubens Barbosa disse que a indústria ficará praticamente estagnada este ano, com alta de no máximo 1,5% na moagem, que vem se mantendo estável em torno de 13 milhões de toneladas.
Ele explicou que o documento a ser apresentado para quem ocupar a Presidência da República nos próximos quatro anos tem como uma das prioridades o pedido de linhas de crédito para que os moinhos invistam em estruturas de armazenamento.
“Nós fomos solicitar lá duas vezes já ao BNDES uma linha de crédito para os moinhos, para a indústria, mas a gente não avança com isso. Há uma grande necessidade para não perder trigo, como está perdendo no agro em geral, tem que ter armazenamento de trigo”, ressaltou.
A alta nas importações vem representando aumento de custos para a indústria, disse Barbosa. Entre os maiores produtores de trigo globais estão Rússia e Ucrânia, que estão em guerra desde 2022.
Embora o setor não seja diretamente impactado pela guerra no Irã, o conflito na região também agravou o encarecimento dos custos logísticos, até mesmo do diesel usado para trazer trigo de caminhão, da Argentina.
Outra preocupação é uma mudança recente na tributação sobre o trigo importado. De acordo com a Abitrigo, desde agosto houve um aumento de 1,17% na carga tributária, além de uma redução de 10% no crédito presumido.
“Esses fatores pressionarão os custos do trigo em 2026/2027 e afetarão os preços da farinha e dos produtos derivados como pães, massas e biscoitos”, alertou Barbosa.
Na pauta a ser apresentada em janeiro, os moinhos também vão pedir uma política nacional para o trigo, com medidas para incentivar o cultivo no Brasil.
Cenário econômico
As preocupações com a política econômica no Brasil e o cenário internacional também foram destaque no primeiro painel do Congresso da Abitrigo.
Sérgio Vale, economista-chefe da MB, avaliou que, independentemente da vitória de Flavio Bolsonaro ou da reeleição do presidente Lula, não se deve esperar queda muito expressiva na taxa básica de juros em 2027.
A inflação de alimentos está caminhando para 10% em 27 por causa do El Niño, isso já leva o IPCA para 4,5%. ASelic vai cair, mas não muito, pode ficar em 12%”, disse o analista.
“É um ano que todo esse impulso fiscal que a gente viu acontecer no ano eleitoral vai sair do cenário. É uma economia que cresce menos, desemprego sobe um pouco, juros ainda vão continuar elevados. É um consumidor que vai estar mais arisco”, pontuou Vale, em conversa com o AgFeed, após o painel.
De qualquer forma, ele avalia que o setor do trigo sofre menos se comparado a outros de bens duráveis como máquinas e eletrônicos.
Sobre o agronegócio exportador, o economista ainda prevê um ano difícil em 2027.
“Ainda é um ano desafiador, porque tem o El Niño. Tem muita volatilidade na produção agrícola ano que vem. É um ano ainda, também, de juros elevados. O custo de crédito do setor ainda é preocupante para 2027. E tem o efeito do impacto da guerra. O preço de fertilizantes vai continuar elevado”.
Na visão de Sérgio Vale, a expectativa mais positiva fica para 2028, depois que passar o El Niño, os juros estiverem baixos e “um ajuste fiscal mínimo” seja feito no Brasil. Ele acredita que um seguro rural mais fortalecido daqui para frente também será fundamental a dar mais segurança para que produtores invistam no trigo.
Sobre o câmbio, a expectativa é de um dólar mais próximo de R$ 4,80 caso Flavio Bolsonaro vença as eleições, segundo ele. Já em caso de reeleição de Lula há uma tendência de “subir com um pouco mais de intensidade no primeiro momento”.
“De qualquer maneira, os dois, quem ganhar vai ter que fazer um ajuste fiscal mínimo e você vai ter alguma tranquilidade. Não vejo o câmbio explodindo, nem o câmbio despencando. Não vejo um câmbio nem de 6, nem de 4”.
Também participou do painel o analista de assuntos internacionais da CNN Brasil, Lourival Sant'Anna, que alertou sobre "a interdependência" entre os países, algo que já foi benéfico no passado, mas que agora representa riscos em determinados mercados. A expectativa é mais tensão envolvendo Donald Trump, que sofre os efeitos da inflação causada pelo conflito no Irã que ele mesmo criou.
Resumo
- Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) vai apresentar uma pauta de demandas para o próximo governo, com destaque para linhas de crédito no BNDES
- Indústria deve importar este ano mais de 9 milhões de toneladas de trigo, o maior volume dos últimos 30 anos
- Com custos em alta, moinhos defendem uma política nacional do trigo, para incentivar a produção brasileira do cereal