Em um momento em que margens mais apertadas no campo e o aumento da oferta têm colocado pressão sobre as sementeiras, a Polato Sementes, de Rondonópolis (MT), decidiu seguir na direção contrária no ano em que chega ao 45º aniversário.
A empresa de Mato Grosso investiu cerca de R$ 100 milhões ao longo dos últimos anos para ampliar sua estrutura industrial na Fazenda Bahia, em Pedra Preta (MT), e preparar o negócio para uma nova etapa de crescimento.
A Polato começou a operar neste ano uma nova indústria de beneficiamento de sementes, com capacidade de beneficiamento de 600 mil sacos de semente de soja. A empresa já tinha uma outra unidade, que segue operando e foi modernizada, com capacidade de beneficiar 400 mil sacos.
"Juntando a unidade antiga e a nova, hoje a gente tem potencial para 1 milhão de sacos", diz Jeferson Andrade, diretor comercial da empresa, em entrevista ao AgFeed.
O pacote de investimentos também incluiu uma estrutura dedicada ao processamento de sementes de algodão, além de melhorias na estrutura de beneficiamento já existente, escritórios, recebimento, balanças e outras instalações.
Com isso, a companhia deve, já neste ano, ter um incremento em sua receita. Neste ano, a Polato deve faturar aproximadamente R$ 400 milhões, segundo Jefferson Andrade.
“Não ficou tão igual, digamos, ao nosso planejamento, mas estamos num cenário um pouco mais desafiador. Como a commodity também acaba com preço mais baixo, acaba puxando um pouco para baixo”, ressalta. “Mas ano que vem, a ideia é que passe de R$ 500 milhões.”
Andrade lembra que a companhia não ficou imune às dificuldades dos produtores e também à concorrência no mercado. Diversas sementeiras ampliaram a produção durante os anos de maior rentabilidade da soja, aumentando a oferta justamente quando a demanda passou a crescer de forma mais lenta.
“Passou a haver uma oferta maior de sementes e o próprio produtor está pressionando mais na compra, porque, realmente, a conta não está fechando tão fácil para ele e a semente pesa no custo dele”, diz Andrade.
A Polato também sente os efeitos da restrição de crédito. Embora não venda diretamente sementes de soja a prazo, trabalha com canais parceiros que oferecem financiamento aos agricultores. "A gente acaba sendo impactado indiretamente com isso", afirma o diretor comercial.
O ambiente fez a companhia crescer menos do que previa inicialmente. Ainda assim, Andrade afirma que a Polato continua avançando enquanto alguns concorrentes reduzem produção.
“Estamos conseguindo crescer de uma forma mais lenta do que projetado, enquanto tem outros players que estão encolhendo.”
Estratégia anticíclica
O investimento da Polato ocorreu justamente quando o ciclo das commodities começava a perder força, levando boa parte do setor a adotar uma postura mais cautelosa.
“Estava todo mundo desacelerando e a gente entrou acelerando”, diz Andrade. “A gente acredita que, quando as coisas começarem a melhorar, vamos entrar nesse cenário mais favorável preparados.”
A lógica, segundo o executivo, foi aproveitar um período menos aquecido para executar um investimento que exige tempo até atingir a maturidade.
Paripassu, a decisão de investir também nasceu de um problema do dia-a-dia da operação: faltava capacidade para atender a demanda. "Estávamos deixando de vender semente porque não tínhamos capacidade produtiva. Saturamos tudo o que tinha de espaço dentro da estrutura antiga", conta Andrade.
Ao mesmo tempo, o mercado de sementes ficou mais complexo, com aumento do número de variedades, biotecnologias e materiais comercializados e uma janela de colheita cada vez mais curta.
Por isso, em vez de simplesmente ampliar a instalação antiga, a empresa optou por mantê-la em operação e construir uma nova unidade.
"Nós até avaliamos muito fazer um processo de ampliação da estrutura antiga. Fizemos vários desenhos, vários projetos. Mas chegamos à conclusão que era melhor fazer uma estrutura nova e deixar aquela estrutura antiga operando também em paralelo para atender algumas demandas", conta Andrade.
A estrutura anterior foi modernizada e ficará concentrada principalmente em lotes menores, lançamentos e materiais de menor volume. A nova instalação será destinada aos produtos de maior escala, permitindo aumentar o fluxo de recebimento e processamento.
A capacidade adicional também abre espaço para diminuir uma concentração histórica da Polato, avalia Andrade.
Isso porque, praticamente toda a comercialização de sementes da companhia está concentrada em Mato Grosso.
Mas, agora, com mais produto disponível, a empresa já vem entrando em outras regiões produtoras como Matopiba e Mato Grosso do Sul.
“Nós já tínhamos começado um processo mais acanhado de expansão e, agora, começamos a acelerar”, diz Andrade.
A estratégia é avançar de maneira concentrada, construindo mercado região por região, em vez de promover uma expansão nacional de uma só vez. “Devagar, nós estamos expandindo, tentando ampliar nossa área de atuação”, explica o executivo.
A diversificação geográfica também ajuda a reduzir a dependência de Mato Grosso, que, apesar de ser o principal mercado da companhia, concentra um grande número de sementeiras e uma competição intensa. “Mas, ainda assim, no fim do dia, continua sendo o maior mercado.”
Algodão e sorgo
Outra frente de crescimento está no algodão, que fez parte do investimento de R$ 100 milhões no aumento de capacidade industrial.
Depois de montar e testar uma estrutura própria de processamento no ano passado, a Polato iniciou em 2026 sua primeira operação comercial com sementes da cultura.
A capacidade atual está entre 50 mil e 60 mil sacos e a expectativa é produzir um volume próximo de 50 mil já neste primeiro ano.
“E ela já está preparada pra dobrar o capacidade. A gente já tem todo o espaço pronto, físico para poder dobrar conforme necessidade”, diz.
A Polato também vê possibilidade em uma cultura bem menor, mas que a companhia acredita ter potencial para crescer no Cerrado: o sorgo.
Andrade conta que a Polato já realizou um projeto-piloto com sementes da cultura e agora trabalha nos ajustes necessários antes de tentar ganhar escala comercial.
“Tem que fazer, entender, para depois começar a ganhar escala”, diz o executivo. “Mas a gente acredita muito que o mercado de sorgo cresce muito.”
Quatro décadas de história
O investimento marca mais um capítulo de uma história que começou muito antes de a semente se tornar o principal negócio da família.
Criada em 1981, a Polato nasceu da agricultura. Vinda do Paraná após ter tido prejuízos com a “geada negra”, que arrasou com os cafezais paranaenses em 1975, a família Polato se estabeleceu na região da Serra da Petrovina, em Mato Grosso, no início dos anos 1980.
Os Polato plantavam inicialmente soja e milho e estiveram entre os pioneiros no cultivo de algodão na região ainda na década de 1990.
A produção de sementes também entrou cedo na trajetória da companhia. A empresa chegou a ser uma das maiores sementeiras de soja do Estado, com produção superior a 650 mil sacos em determinado momento de sua história.
O negócio, porém, foi interrompido por aproximadamente sete anos a partir de 2004. A retomada veio na década passada, já durante o processo de sucessão familiar, quando Orlando Henrique Polato, filho do fundador, Orlando Polato, assumiu a operação e iniciou uma reorganização da empresa.
Depois de cerca de dois anos de ajustes, a companhia voltou ao mercado de sementes, inicialmente com prestação de serviços e licenciamentos de genética, enquanto modernizava a estrutura que já possuía.
A partir daí, a divisão ganhou espaço dentro de um grupo que continuou mantendo a produção agrícola.
Hoje a Polato cultiva aproximadamente 12 mil hectares de soja, 6 mil hectares de algodão e 4 mil hectares em quatro fazendas diferentes na Serra da Petrovina.
Até poucos anos atrás, a agricultura respondia pela maior parte das receitas, com destaque para o algodão em pluma.
Hoje, a área de sementes já superou a operação agrícola e representa aproximadamente 60% do faturamento da companhia, ante 40% da produção agrícola.
Recentemente, a empresa fez uma captação de R$ 137 milhões, com a oferta pública de CPR-F com rentabilidade atrelada ao dólar. Foi a primeira vez que uma operação de CPR-F com indxação cambial foi realizada no Brasil. A operação foi estruturada pelo Itaú BBA e os títulos foram voltados a pessoas físicas.
Resumo
- Polato investiu R$ 100 milhões e elevou a capacidade de beneficiamento para até 1 milhão de sacos de sementes por ano
- Companhia prevê faturar cerca de R$ 400 milhões em 2026, alta de 15%, e mira superar R$ 500 milhões no próximo ano
- Além de crescer fora de Mato Grosso, empresa aposta em sementes de algodão e testa o sorgo como nova frente de expansão