Com cerca de US$ 25 bilhões em ativos sob gestão, sendo US$ 10 bilhões deles alocados em papeis de grandes grupos listados em bolsa, a Generation Investment Management, gestora fundada pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, e pelo investidor ativista David Blood, é uma referência global quando o tema é investimento sustentável.
Somente a Just Climate, seu braço voltado a financiar projetos de soluções climáticas e descarbonização, por exemplo, tem cerca de US$ 1,5 bilhão captados.
Não por acaso, portanto, os relatórios anuais da instituição sobre tendências de sustentabilidade costumam ser analisados com atenção não só pelos mercados, mas por líderes nas mais diversas áreas.
Na semana passada, a décima edição do Sustainability Trends Report foi divulgada trazendo um alerta direto: o mundo pode estar à beira de uma nova emergência alimentar global.
Esse é o resumo de um dos capítulos do documento, entitulado "Pessoas, Terra e Alimentos". Nele, a Generation descreve o momento atual como uma combinação perigosa da interrupção do fluxo de fertilizantes pelo Estreito de Ormuz com o fortalecimento do fenômeno climático El Niño e a fragilidade estrutural de um sistema que, em escala global, "come mais ou menos o que planta ano a ano".
O ponto de partida do relatório é justamente a crise no Oriente Médio. Segundo o documento, o bloqueio da passagem de Ormuz reteve cerca de 30% do fertilizante nitrogenado normalmente fornecido aos agricultores do mundo e a produção agrícola depende criticamente desse insumo.
A gestora lembra que o preço da ureia, um dos insumos principais para a produção desses fertilizantes, saltou mais de 50% nos principais mercados no auge da crise, justamente na época de plantio da primavera no Hemisfério Norte.
A consequência foi imediata: os agricultores compraram e usaram menos fertilizante, o que tende a reduzir a produção total à medida que a colheita de 2026 se completa nos próximos meses.
O relatório ressalta ainda que quase metade do suprimento mundial de alimentos depende de fertilizantes nitrogenados produzidos em fábricas — “uma dependência química” que se tornou estrutural, segundo o texto — e que quase um terço da produção global desse insumo está concentrada no Golfo Pérsico.
Para se configurar uma escassez alimentar mais ampla, porém, esse quadro precisaria ainda se agravar. O próprio relatório aponta que os preços estão elevados em comparação com as décadas de preços baixos que prevaleceram no mercado, mas o pico recente, até agora, não é tão severo quanto o que acompanhou o início da guerra na Ucrânia, que interrompeu temporariamente as exportações de um dos principais celeiros do mundo.
Os números da fome
O relatório traz três medidas diferentes do problema, todas preocupantes. O número de pessoas sofrendo fome aguda é estimado em 318 milhões, com o Programa Mundial de Alimentos alertando que o total pode saltar para 363 milhões, ainda que, se isso se materializar, ocorra ao longo de quase um ano. Em uma medida mais ampla, 645 milhões de pessoas passaram por fome persistente em 2025, mais de 90% delas na África e na Ásia.
O documento também descreve a fragilidade da região que vai do Norte da África ao Oriente Médio, onde vivem cerca de 600 milhões de pessoas após décadas de rápido crescimento populacional.
Em sua maioria, esses países não têm água e terra fértil suficientes para produzir o próprio alimento: a produção doméstica cobre menos da metade do que alguns países consomem. E, nos mais expostos, pouco mais de 10%.
Outro dos pontos centrais do relatório é a constatação de que o mundo perdeu a margem de segurança que já teve. Muitos imaginam que os governos mantêm reservas de alimentos suficientes para enfrentar crises, mas isso é menos verdade do que costumava ser. Na verdade, a maioria dos governos depende das entregas just-in-time do sistema de comércio global para alimentar suas populações.
Assim, uma interrupção em escala verdadeiramente global — uma erupção vulcânica massiva que escurecesse o céu por meses ou falhas simultâneas em múltiplos celeiros causadas pela mudança climática — produziria, segundo o documento, caos, pânico e fome em massa.
Há, porém, uma exceção relevante. O relatório destaca que as ondas de fome que mataram milhões no país ensinaram o governo da China a ser extremamente cauteloso em manter a população alimentada. Os chineses não apenas mantêm reservas de grãos, mas também um imenso estoque de carne suína congelada.
O El Niño e o tempo de espera
O relatório ressalta que o potencial déficit de produção decorrente da crise de Ormuz levará muitos meses para se mostrar por completo. Com isso, vai se somar a outros choques, incluindo o fortalecimento do El Niño, previsto como um dos mais fortes já registrados, que pode atingir duramente algumas safras e agravar a situação.
Ou seja, ainda levará tempo até que se conheça a magnitude total da crise alimentar e seus efeitos sobre os mais pobres do mundo.
O documento, no entanto, enxerga janelas de oportunidade. Países com histórico de uso excessivo de nitrogênio, que gera poluição que desce pelos rios e cria "zonas mortas" onde encontra o oceano, podem ser forçados pelos preços altos a usar fertilizantes com mais critério, o que seria um efeito colateral positivo.
O momento também seria propício, segundo o relatório, para empresas que oferecem alternativas aos agroquímicos convencionais, especialmente as de bioinsumos. O documento cita o investimento da Generation na Pivot Bio, que vende um substituto ao fertilizante nitrogenado usando uma cobertura bacteriana que permite às plantas captar nitrogênio do ar pelas raízes.
A esperança, afirma o texto, é que o momento ajude a impulsionar práticas agrícolas mais sustentáveis e regenerativas, lembrando que a maior contribuição dos movimentos orgânicos e regenerativos foi enfatizar a importância do solo saudável, rico em nutrientes e, portanto, menos dependente de fertilizantes químicos.
O risco sobre as florestas
Historicamente, escassez de alimentos leva ao aumento da pressão humana sobre as florestas, com abertura de novas áreas para produção agrícola. O relatório espera que isso não aconteça desta vez, dado o foco atual da política global em desacelerar o desmatamento.
Nesse ponto, a Generation reconhece o papel do Brasil. Segundo ela, o País fez progressos em desacelerar a perda florestal causada por humanos na Amazônia e lidera um esforço global para criar um sistema que pague países tropicais para manterem suas florestas em pé.
O documento aponta, entretanto, uma contradição preocupante. Mesmo com a queda nas perdas causadas diretamente por humanos, as perdas por incêndios florestais estão subindo, tanto nos trópicos quanto na vasta floresta boreal do Hemisfério Norte.
A Amazônia, segundo o relatório, está sob risco extremo de desertificação e incêndios florestais em um clima superaquecido e a situação pode atingir o pico nos próximos meses, quando o El Niño alcançar sua força máxima. Já no Hemisfério Norte, lembra o documento, este ano a fumaça dos incêndios poluiu o ar de grandes cidades como Chicago e Nova York.
Resumo
- Relatório da Generation Investment Management alerta para riscos de uma nova emergência alimentar global
- Crise de fertilizantes, El Niño e mudanças climáticas podem pressionar a produção e ampliar a insegurança alimentar
- Gestora aponta bioinsumos, agricultura regenerativa e preservação de florestas como caminhos diante dos riscos crescentes