Huxley (Iowa, EUA) - A crise financeira enfrentada pelos produtores rurais brasileiros não é a primeira turbulência vivida pela multinacional alemã Bayer em seus 130 anos de atuação no País, comemorados neste ano – e provavelmente não será a última.
“Este é mais um dos 130 anos, sempre com desafio, com coisas únicas, com situações novas”, resumiu Márcio Santos, CEO da Bayer no Brasil, em entrevista ao AgFeed durante o Bayer Innovation Showcase, evento que reúne nesta semana, em Iowa, nos Estados Unidos, executivos do alto escalão da multinacional alemã.
É com essa perspectiva que a companhia chega à safra brasileira 2026/2027, diante de um cenário de crédito mais restrito, juros elevados e incertezas climáticas.
Apesar de reconhecer as dificuldades vividas pelos agricultores, Santos ressaltou que a Bayer mantém a expectativa de crescimento das vendas na metade final do ano, momento crucial para as receitas da empresa.
“É um momento desafiador da agricultura pelos últimos anos, mas, por outro lado, a gente vê um movimento de melhora no preço de algumas commodities importantes, como soja e milho, nas últimas semanas, que traz um certo alento para o olhar para o futuro”, avaliou.
“Acreditamos, sim, em ter um ano de crescimento, com a cautela de ser um mercado que a gente sabe que é desafiador”, emendou.
Na prática, porém, o primeiro semestre da área de Crop Science da Bayer foi marcado por atrasos nas compras de insumos no Brasil, fenômeno sentido por todos os grandes players do setor e também pelo Sindiveg, associação que representa as indústrias de agroquímicos.
“O Brasil teve, no primeiro semestre, bastante [atraso]. Eu diria que julho e agosto também, em alguns casos. E, evidentemente, coloca um pouco mais de pressão [nos resultados]”, disse Maurício Rodrigues, presidente da divisão de Crop Science da Bayer na América Latina, que também estava presente no evento, ao AgFeed.
Segundo o executivo, a combinação entre menor liquidez e incerteza climática tem levado os produtores a postergar as decisões de compra para mais perto do início do plantio.
“O que a gente está vivendo é um ano de um nível maior de incerteza com relação a liquidez e clima. Quando você tem dois fatores desses juntos, muitos produtores vão deixar para o último momento para a decisão. Isso coloca um pouco mais de pressão no sistema”, afirmou Rodrigues.
O movimento tem reflexos não apenas sobre as vendas, mas também sobre a logística de abastecimento, disse o executivo.
Com os pedidos concentrados mais próximos do plantio, diminui o tempo disponível para que a indústria organize estoques e faça a entrega dos produtos.
Apesar disso, o executivo afirmou que a Bayer não vê risco de desabastecimento para a próxima safra. O cenário exige, segundo ele, maior atenção à execução e à coordenação da cadeia.
“Acredito que não chega a gerar nenhum tipo de preocupação extrema, é só atenção, assegurar que o sistema precisa funcionar bem. Não pode ter problemas na execução”, disse.
Para lidar com a maior concentração dos pedidos, a companhia trabalha com diferentes alternativas de abastecimento, antecipando possíveis mudanças no comportamento dos clientes.
“Esses planos A, B, C, D estão todos bem feitos, considerando os atrasos que estão ocorrendo”, pontuou Rodrigues.
“Acredito que isso faz com que a gente também não fique a risco de não disponibilizar o produto. Ele vai atrasar, por causa da decisão atrasada, mas vai conseguir chegar a tempo para a gente conseguir a aplicação.”
Crédito sob medida
O cenário de falta de liquidez no campo e de aumento de pedidos de recuperação judiciais por parte de produtores rurais também coloca o crédito, motor que faz a frente de vendas girar, no centro das discussões da companhia.
Para Márcio Santos, o CEO da companhia no Brasil, no entanto, não é possível tratar todos os produtores da mesma maneira.
Na visão do executivo, o produtor deve ser encarado como um empreendedor que, assim como qualquer investidor, precisa de acesso a recursos para conduzir o negócio.
“O crédito é uma necessidade de todo investidor. A gente tem que olhar o produtor como um investidor, ele é um empreendedor, e o crédito é parte de qualquer que seja um investidor”, afirmou.
Santos reconhece que uma parcela dos produtores brasileiros enfrenta dificuldades financeiras depois de ser atingida por eventos climáticos extremos, como secas e inundações. Nesse grupo, segundo ele, diferentes elos da cadeia têm buscado alternativas para amenizar os impactos.
“Para esses, eu acho que todos os elos da cadeia, as cooperativas, o poder público, as empresas, está todo mundo sensível tentando encontrar uma solução”, disse o CEO da Bayer no Brasil.
Ao mesmo tempo, Santos lembra que há uma outra parcela de produtores que enfrentam dificuldades por fatores externos e que podem ter assumido decisões de investimento mais arriscadas.
“Acho que a gente vai ter sempre que diferenciar os produtores, porque você não pode dizer que a situação é uniforme. Nós acabamos de falar que não é linear, não é linear em nenhuma dimensão que você queira”, afirmou.
Essa distinção, na visão do CEO, será importante para definir quais ferramentas de crédito devem ser utilizadas para apoiar os produtores sem comprometer a sustentabilidade financeira de quem fornece os recursos.
O desafio, segundo Santos, é criar mecanismos de suporte para quem foi afetado por fatores fora de seu controle, sem perder de vista que o crédito tem custo e precisa ser devolvido.
“Se você dá um crédito, o dinheiro é de um investidor. Tomei o seu dinheiro e emprestei para outro, você precisa do seu dinheiro de volta”, exemplificou.
Apesar do ambiente mais difícil no campo, Santos vê espaço para crescimento da Bayer a partir do portfólio de produtos que chega ao mercado brasileiro. Segundo ele, a companhia terá neste ciclo a maior safra de lançamentos de sua história.
“Só de químicos a gente está com mais de dez produtos, de híbridos nós temos quase 20 produtos, variedades de soja, quase 20 produtos. Também temos a chegada de duas biotecnologias, na soja e no algodão”, disse. “No final do dia, isso tem que ser solução para o colono que está lá na ponta plantando.”
Santos também mantém a expectativa em torno da chegada da Intacta 5+, quarta geração da tecnologia de soja transgênica da Bayer, prevista para estrear no mercado na safra 2027/2028 e que ainda depende da aprovação regulatória por parte do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Para o executivo, a previsibilidade do ambiente de negócios brasileiro, apesar dos desafios regulatórios e econômicos, continua sendo um fator importante para sustentar os investimentos da companhia no País.
“Nós e muitos do setor construímos um modelo de negócio no Brasil, que é um modelo previsível. A gente tem um ambiente regulatório, conhecido, com seus desafios mais conhecidos, a gente tem um reconhecimento aos direitos de quem investe, então isso criou um ambiente para que venham novos lançamentos e a gente está muito otimista com os lançamentos”, disse.
Desafios se espalham pela América Latina
As dificuldades enfrentadas pelos produtores brasileiros não são isoladas na região. Ao longo da primeira metade de 2026, as vendas da divisão de Crop Science na América Latina recuaram 8% no primeiro trimestre, seguida por alta de 3,7% no segundo trimestre.
Segundo Maurício Rodrigues, presidente da divisão de Crop Science na América Latina, a oscilação reflete, em parte, o atraso nos pedidos observado em diferentes mercados da região ao longo dos primeiros seis meses do ano.
O movimento afetou os resultados, sobretudo no início do ano, em um cenário de margens mais apertadas em mercados como Brasil e México.
Ainda assim, a expectativa da Bayer é encerrar 2026 com “leve crescimento” em relação ao ano passado, crescendo mais que o mercado de agroquímicos em geral.
“Nós tivemos já uma reversão muito positiva nos últimos meses e estamos bastante otimistas [com o fechamento do ano]”, disse Rodrigues.
“Se a gente conseguir um leve crescimento esse ano com todos esses ventos contra, eu acredito que vai ser bastante positivo.”
Um dos mercados que ajudam a compor esse cenário é a Argentina, segundo maior mercado da Bayer na América Latina.
O ambiente macroeconômico do país apresenta sinais mais favoráveis, embora os produtores ainda mantenham uma postura cautelosa nas decisões de compra.
Entre os fatores positivos, Rodrigues destacou a redução das retenciones, como são chamadas as tarifas incidentes sobre determinadas exportações agrícolas argentinas.
Na avaliação do executivo, a redução dos impostos melhorou a percepção dos produtores sobre as perspectivas para o setor.
Pelas novas regras adotadas pelo governo argentino, a alíquota sobre as exportações de soja, atualmente em 24%, terá uma redução gradual, de 0,25 a 0,50 ponto percentual, a partir de janeiro de 2027.
Outros produtos relevantes da agricultura argentina já tiveram redução nas tarifas: desde junho, as alíquotas sobre trigo e cevada caíram de 7,5% para 5,5%.
“As notícias recentes são mais positivas do que negativas. O governo vem diminuindo essas retenções, então a sensação e a percepção é muito positiva”, comentou Rodrigues.
Apesar do ambiente mais favorável, a Bayer também observa atraso nas compras dos produtores argentinos. O movimento, contudo, ainda está dentro de uma faixa administrável, segundo o executivo.
“Nós estamos tendo um certo atraso na Argentina no último mês, mas ainda dentro do razoável, mas um pouco mais atrasado do que eventualmente estava antes”, disse.
Um ponto de atenção para a Bayer em toda a região é o impacto que o fenômeno climático El Niño pode ter sobre a produtividade agrícola.
Segundo as previsões mais recentes da NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, divulgadas no início de agosto, há mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno esteja presente no trimestre entre setembro e novembro.
Maurício Rodrigues afirma que já observou os efeitos do El Niño sobre a agricultura em outros mercados latino-americanos.
“Eu tive este ano a oportunidade de ir ao Peru, ao Equador e você vê o efeito do El Niño muito claro lá, e a gente vem monitorando isso dentro do Brasil, sabendo dos possíveis riscos que isso traga”, afirmou.
O cenário climático ganha peso adicional diante da situação financeira de parte dos produtores, lembrou ele, que chega a esta safra ainda pressionada pelos resultados dos últimos anos.
Ao mesmo tempo, Rodrigues destacou que a produtividade brasileira foi positiva em 2025, o que pode ajudar a dar maior estabilidade ao produtor neste ciclo.
“É também um ano que, evidentemente, uma parte do produtor vem, às vezes, um pouco golpeado dos últimos anos. A vantagem é que no ano passado a gente teve uma produtividade muito boa e talvez o que a gente esteja trabalhando esse ano é assegurar que essa produtividade seja a máxima possível de novo, para, independente de preço de commodities e tudo mais, que essa situação esteja estável”, disse.
Se o clima e as condições financeiras são fatores que desafiam a Bayer na América Latina, os efeitos da separação do negócio de glifosato nos Estados Unidos, com a criação da Ruveon, são limitados, segundo Rodrigues.
“Isso não afeta o restante dos países, com exceção de questões muito operacionais. Um exemplo: a gente compra produtos para fabricação no Brasil ou na Argentina de uma determinada entidade aqui nos Estados Unidos. Antes era uma entidade com um nome, de repente é uma outra entidade”, disse.
“Foi uma decisão dos Estados Unidos e uma decisão pontual. Acredito que é um bom teste para entender como que funciona isso nesse ambiente dinâmico [da indústria].”
*O repórter viajou a convite da Bayer.
Resumo
- Bayer prevê crescimento nas vendas da área agrícola no Brasil em 2026 apesar de crédito restrito, juros altos e incertezas climáticas
- Crédito restrito, juros altos e incertezas climáticas são vetores que desafiam a companhia
- Multinacional registrou atraso nos pedidos de compra de insumos pelos produtores no primeiro semestre