Já é quase uma tradição nas edições anuais do Congresso da Andav. O auditório fica cheio para ouvir as análises de Carlos Cogo, sócio da Cogo Inteligência em Agronegócio, e um dos mais conceituados consultores do País.
Não foi diferente em 2026, ainda mais em um momento em que o setor enfrenta uma avalanche de desafios provocada por uma rara conjunção de fatores negativos, no campo, no clima, no crédito e na geopolítica.
Cogo tratou de todas eles, pontuando sobretudo as oportunidades que enxerga mesmo em um cenário tão conturbado.
Logo após sua palestra, ele esteve no estande da AgriConnection, onde concedeu uma entrevista exclusiva para a série SpeedCast Andav 2026, iniciativa do AgFeed em parceria com a companhia de distribuição de insumos.
“As oportunidades existem. O que a gente está vendo são as mudanças de paradigmas”, sentenciou ele, resumindo o quadro geral do agronegócio brasileiro no momento e para os próximos anos.
Na conversa, ele destacou como pontos mais relevante do atual momento o que chamou de “inflexão do crédito rural”, a desaceleração da expansão de área plantada e a nova fronteira dos biocombustíveis.
Para Cogo, o principal ponto de atenção é o crédito rural, que vive um momento de inflexão. Ele lembrou que, no fim dos anos 1990, o governo financiava cerca de 90% da demanda de crédito do setor. Hoje, disse, esse percentual caiu para a casa de 6% a 7%. "R$ 97 bilhões no plano safra para crédito subsidiado, crédito subvencionado. É o menor nível dos últimos anos", afirmou.
O desafio, segundo ele, está na migração para o crédito privado — com fiagros, CPRs e CRAs a juros elevados. "Aqui eu não vejo oportunidade nenhuma", disse, ressaltando que o setor de crédito está estruturado para isso, mas não consegue oferecer um valor competitivo com a taxa básica de juros nos patamares atuais.
Ainda assim, Cogo não vê risco de redução da área plantada mesmo diante da expectativa de queda na tomada de recursos para o custeio por parte dos produtores rurais.
A explicação, segundo ele, está no avanço das operações de barter: em commodities como a soja, cerca de 45% a 50% do custeio já viria dessas operações, feitas diretamente com as indústrias de insumos ou com as trades.
O consultor acredita que o avanço vai continuar, mas em ritmo bem mais moderado. “Você vai ver agora um avanço muito maior nas áreas de milho e de segunda safra”, projetou, citando o movimento do produtor de usar a mesma área duas ou três vezes no ano.
Segundo ele, enquanto as safras de verão devem reduzir a expansão para a faixa de 1,5% a 1,8% ao ano, as culturas de segunda e terceira safra crescem a 3,1% ao ano.
No cenário externo, Cogo avalia que o Brasil precisa se adaptar rapidamente ao novo driver da demanda chinesa. Ele lembra que a China já alcançou autossuficiência em arroz, trigo e carne suína, mas na soja não teve sucesso até agora — embora acredite que algum nível de avanço virá com o tempo, inclusive na substituição de parte do farelo.
“Não estou dizendo que a China vai reduzir drasticamente sua importação de soja. Acho que não vai acontecer isso no curto prazo”, ponderou, ressaltando que o ritmo de importação já está diminuindo, com a população caindo e a demanda por carne em patamar alto.
O resultado, diz ele, é um crescimento do agro brasileiro “muito mais moderado” na próxima década, diferente do ritmo “alucinante” das últimas duas décadas.
Biocombustíveis: a nova mudança de paradigma
Entre as oportunidades, Cogo destaca os biocombustíveis como uma mudança de paradigma. “O Brasil tem tudo para ser o maior player global de biocombustíveis. Tem terra, tem produto, tem estrutura”, afirmou, citando a capacidade instalada de 63 bilhões de litros de etanol contra uma produção de 40 bilhões, e cerca de 16 bilhões de litros de biodiesel, produzindo 10 bilhões de litros.
Para ele, a mudança está em deixar de direcionar o biocombustível apenas para misturas do mercado interno e passar a mirar o mercado externo, em um movimento que ganha também uma pegada geopolítica, como estratégia para reduzir a dependência de derivados fósseis.
“O futuro é exportação de biocombustível no mesmo modelo que o agro brasileiro cresceu na exportação de grãos”, projetou, reconhecendo que haverá “dor no caminho” e disputas internas, como a da indústria da cana com o etanol de milho.
Sobre o etanol de milho, Cogo condiciona a retomada dos investimentos à política fiscal. Com juro real de 9,3% ao ano e taxa básica acima de 14%, analisou, é impossível viabilizar investimentos em uma usina. “Por mais que o crush spread da usina de etanol de milho seja excelente, a margem é boa, é um modelo realmente competitivo, mas essa taxa de juros, sinceramente, não tem nenhum segmento competitivo com essa taxa de juros”, disse.
Vulnerabilidade nos insumos e o peso da eleição
No cenário de insumos, o consultor aponta a vulnerabilidade do país: cerca de 90% dos fertilizantes e 70% dos defensivos químicos são importados. “A gente está se mostrando tremendamente vulnerável em vários segmentos de insumos”, alertou, citando que 45% dos fornecedores de fertilizantes do Brasil são países com instabilidade geopolítica, como Rússia, Nigéria, China, Irã, Omã e Catar.
Para o próximo ano, Cogo condiciona a trajetória à eleição. “A eleição vai definir uma coisa importante, que é a política econômica e a direção dos juros no Brasil”, afirmou.
Ele defendeu a necessidade de um corte de pelo menos 1% do PIB em gastos públicos, cerca de R$ 120 bilhões, para que os juros saiam dos patamares elevados — movimento que, disse, dependerá da disposição do governo que entrar.
Resumo
- Carlos Cogo afirma que o agro seguirá crescendo, mas em ritmo menor, diante de mudanças no crédito e na demanda chinesa
- Consultor destaca biocombustíveis como a principal oportunidade estratégica para ampliar as exportações brasileiras
- Juros altos, dependência de insumos importados e eleições de 2026 devem influenciar os rumos do agronegócio