Depois de um ciclo de bonança, os confinadores de gado entraram no ano de 2026 otimistas com o mercado, sustentados pela valorização da arroba do boi – há mais de um ano superando a faixa dos R$ 300 – e pela relativa estabilidade nos custos de milho e soja, utilizados como matéria-prima para ração animal.
Esse é a fotografia tirada pela Cargill Nutrição e Saúde Animal, que apresentou a jornalistas nesta quarta-feira, dia 6 de maio, os dados da décima edição do Benchmarking Confinamento Beef, levantamento anual que reúne dados de quase um terço de confinamentos de todo o Brasil.
Ao todo, 70,2% dos entrevistados pela Cargill projetam que o ano de 2026 seja melhor do que foi 2025, enquanto que 21,5% esperam estabilidade e 6,3% projetam piora do mercado. A pesquisa levou em conta 2,7 milhões de animais intensificados por 217 pecuaristas.
Questionados sobre qual era a maior oportunidade que o ano de 2026 trazia, 62,86% dos entrevistados que o valor de vendas era a principal ferramenta de crescimento, seguido pelo custos dos insumos, visto por 52,38% do total como principal trunfo. Também estão no topo das preferências gestão de risco na comercialização do gado (50,95%) e recria na fazenda (45,71%).
Para Felipe Bortolotto, gerente de tecnologia para gado de corte da Cargill Nutrição Animal, valor de vendas e custo de insumos são dois vetores que estão puxando o otimismo dos confinadores de gado.
"O produtor está vendo que o valor da arroba está bom e que está produzindo comida com o mesmo preço", afirma Bortolotto. “Além disso, os preços de de milho e soja estão num bom momento, competitivos, e estão entrando bastante nas dietas, que estão no mesmo patamar do ano passado”, resume.
Os dados foram coletados pela Cargill entre janeiro e fevereiro e não refletem eventuais impactos da guerra no Oriente Médio, dizem os executivos da companhia.
Bortolotto não descarta que o cenário pudesse ser ligeiramente diferente se o levantamento fosse feito agora, mas também ressalta que a pecuária tende a ser menos afetada pelo conflito do que a agricultura.
“O custo dos insumos é composto basicamente por milho e soja. Historicamente, ao analisarmos o preço desses grãos, observamos que estamos em um bom momento para a produção de ração animal”, avalia.
Enquanto estão atentos à dinâmica do mercado, os produtores continuam apresentando bons níveis de produção e também de introdução de tecnologias nos cochos.
Ao todo, os confinadores avaliados pela Cargill produziram uma média de 7,82 arrobas, com peso médio de entrada de 371,04 kg de cada animal e peso de saída de 543,77 kg, representando um ganho médio de 163,73 kg.
Entre os dez melhores confinadores do levantamento, os resultados obtidos são até melhores: produção média de 8,82 arrobas, peso médio de entrada de 383,32 kg e peso média de saída de 571,4 kg por animal, ganho de 188,08 kg.
A pesquisa refletiu também tendências que já vinham sendo mapeadas pelo setor há algum tempo, caso da crescente adoção de tecnologias por parte dos confinadores.
A Cargill contabiliza que, hoje, 95% dos confinamentos já utilizam software de gestão operacional – chegando a 100% de aderência considerando os 10 mais confinadores mais bem colocados.
Também tem boa adesão soluções de rastreabilidade individual (44,7%), automação do trato (44,7%), análise de dados e consultoria (44,2%). Mais atrás, estão a adoção de ERP (32,72%), estações meteorológicas (19,8%) e de drones (17,5%).
O uso de inteligência artificial também emerge nessas soluções, ressaltam os executivos da Cargill. Com a ajuda da IA, os confinadores conseguem classificar imagens obtidas por drone para fazer a contagem de animais no cocho.
Tendências
Ao fazer uma análise dos dados nos últimos 10 anos, a Cargill identificou que houve melhora no aproveitamento de matéria seca, com ganho de 9,4 kg por arroba produzida, o que se traduz em um aumento de rentabilidade de cerca de R$ 100 por animal.
Os confinamentos também vêm registrando avanço na produtividade da mão de obra. Segundo o estudo da companhia, o número de animais por colaborador subiu de 425 cabeças em 2021 para 529 no ano passado, movimento impulsionado pela mecanização e pela adoção de novas tecnologias de trato.
“Em confinamentos pequenos, essa relação fica entre 200 a 300 cabeças por colaborador. Mas em confinamentos grandes, chega a passar de 800 cabeças por funcionário”, estima Felipe Bortolotto.
O volume é grande, mas ainda bem menos intenso que nos Estados Unidos, principal país a adotar o sistema de confinamentos no mundo. “Nos Estados Unidos, esse número gira ao redor de 1500, 2000 cabeças por funcionário”, estima Bortolotto.
De acordo com o executivo, outra tendência que vem aproximando confinamentos brasileiros dos americanos é o fato de que o Brasil caminha para aumentar sua taxa de desfrute, atualmente em cerca de 20%, aproximando-se do modelo americano, onde a taxa chega a 33%, o que significa girar o rebanho mais rapidamente e produzir mais carne com o mesmo estoque de animais.
A taxa de desfrute é um indicador de eficiência que mede a produção do rebanho, seja em cabeças ou arrobas vendidas, em relação ao total inicial, indicando o giro da fazenda.
Esse fenômeno acontece, segundo os executivos da Cargill, porque, nos últimos 10 anos, o peso de entrada dos animais vem diminuindo cerca de 1 kg por ano, enquanto que o tempo de permanência no confinamento aumenta 1 dia por ano.
“A tendência futura é o animal entrar cada vez mais leve e os dias de cocho serem cada vez maiores. Vários países já passaram por isso. O rebanho não vai continuar crescendo. Vamos ter de extrair mais leite da mesma vaca ou mesmo boi”, projeta Bortolotto.
Resumo
- Confinadores de gado entraram no ano de 2026 vendo mercado de forma positiva com preços contidos de milho e soja
- Peso de entrada dos animais vem diminuindo ao longo dos últimos 10 anos e dias no confinamento estão crescendo
- Pesquisa foi feita pela Cargill Nutrição e Saúde Animal, braço da multinacional americana